À memória de Julie, que me ensinou sobre começos, meios e fins.
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Um mar azul profundo, remontando uma ancestralidade incerta, me encarando em meio ao som agitado de vozes e motores. O curso da rua seguindo sua normalidade corriqueira. Vez ou outra, olhares curiosos fitam a pequena criatura que repousa na cesta em meus braços. Seu pequeno corpo estendido embaixo do sol quente, acompanhando o leve balançar produzido a cada passo que eu dou. A sensação, imagino, pode assemelhar-se com a de se estar dentro de um barco, em águas desconhecidas. Uma imensidão azul de possibilidades. Se não era isso o que ela estava sentindo, pelo menos era o que me acometia ao fitar aqueles pequenos olhos cheios de segredos.
« Muito mais tarde eu descobriria que fui escalado para o papel do Guardião, para criar e alimentar uma criatura que é parte gato, parte humana e parte algo ainda inimaginável, que pode resultar de uma união que não acontece há milhões de anos. » BURROUGHS, William. O gato por dentro. Porto Alegre: L&PM. 2006.
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Nossos diálogos se dão pelos silêncios. Mediados pelos olhares e movimentos de cauda. Seguindo o subir e descer de sua barriga ao respirar. Na sutileza de seus atos oníricos ao se enroscar nas cobertas ao pé da cama. Mesmo assim, não deixamos de trocar palavras em nossas próprias línguas, o português e os seus miados.
Uma vez eu tentei te desenhar, não me lembro ao certo quando. Mas me detive em seus detalhes. Observei suas formas. Me aproximei e te olhei com atenção, as cores, as manchas, as texturas. A pintinha preta em seu nariz rosado. As patas fofas mescladas de cor. Os pelos que saltam e brilham coloridos na luz do sol.
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Esguio, um gato azul impresso no papel. Colado junto à lousa. Ao seu lado, outros gatos. Não azuis, mas esguios. Gatos vermelhos, laranjas, amarelos. Gatos roxos, verdes, azuis.
Gordos gatos coloridos impressos.
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Muito mais tarde eu descobriria que fui escalado para o papel do Guardião, para criar e alimentar uma criatura que é parte gato, parte humana e parte algo ainda inimaginável, que pode resultar de uma união que não acontece há milhões de anos.
BURROUGHS, William. O gato por dentro. Porto Alegre: L&PM. 2006.
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Sua presença líquida ao meu lado. A luz preguiçosa do sol acariciando seus pelos brilhantes. A língua áspera e serena cumprindo seu ritual silencioso. Compartilhar de um encontro tão milenar e ancestral era algo para o qual talvez eu não estivesse preparado, mas, ainda assim, se mostrava como uma tarefa irrecusável à sua presença. Naquele momento não tinha dúvidas ou não me preocupava com elas. Lentamente e incerto, despi-me de mim mesmo, e, sem saber o que estava fazendo, cheguei a borda, me preparando para mergulhar na imensidão azul que me encarava.
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Meditações estruturais, agosto de 2026:
Após atravessar o périplo das estranhas arquiteturas do espírito tal como elas se erguem nos trópicos, Lévi-Strauss encerra seu livro com uma curiosa meditação:
[…] durante os curtos intervalos que nossa espécie tolera interromper seu labor de colmeia, em captar a essência do que ela foi e continua a ser, aquém do pensamento e além da sociedade: na contemplação de um mineral mais bonito do que todas as nossas obras; no perfume, mais precioso do que os nossos livros, aspirado na corola de um lírio; ou no piscar de olhos cheios de paciência, de serenidade e de perdão recíproco, que um entendimento involuntário permite por vezes trocar com um gato.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996 [1955].
Anos antes de me debruçar sobre as meditações lévi-straussianas, escrevi as minhas próprias. Estas, que ganham eco por aqui, foram escritas por volta de 2016 ou 2017, ao longo de um curso de antropologia, remontando uma experiência ainda mais longínqua, de meados de 2009 ou 2010. Em espirais, o tempo só me faz pensar nas recorrências estruturais do espírito e nos seus jogos intermináveis de bricolagem e transformação. Quem era nessas datas, senão esse que aqui retorna, dissolvido na matéria do mundo.
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